Uma das músicas mais difíceis da Legião Urbana para se interpretar, sem dúvida é "A Montanha Mágica". Na música, Renato quis retratar todo um lado dos usuários de drogas, além de uma auto-reflexão e uma possível crise existencial. É uma letra complicada e com um ritmo um pouco pesado, mas não deixa de ser interessante e inteligente, como todas as músicas da Legião, ela te passa uma moral interessante, e como em parte delas, com um significado simbólico muito grande, que muitas vezes dificulta e acaba distorcendo o real sentido.
Segue-se abaixo, a letra e a interpretação da música:


Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde

Ele é o próprio líder, ou seja, não obedece ninguém, ele se manda. "Ando em Círculos", aqui pode mostrar um lado do efeito das drogas, causando nele ações estranhas, ou o gesto de "pensar" - andando em círculos para pensar, não saindo do lugar. A Vida toda dele, espera algo dele, ou seja, todos e ele mesmo, espera uma melhora vinda da parte dele. Ele se "equilibra entre dias e noites" porque as drogas fazem isso... As drogas fazem as pessoas ficarem descontroladas e acordadas. Ele se equilibra, pendula em dias e noites.

Minha papoula da Índia
Minha flor da Tailândia
És o que tenho de suave
E me fazes tão mal

Papoula da Índia é uma planta que é um dos ingredientes da droga "heroína". "És o que tenho de suave e me fazes tão mal" - É o que ele  tem de suave, calmo, relaxante, que o faz mal. As drogas são isso, são suaves e doces até o efeito passar, então ela lhe faz mal.

Ficou logo o que tinha ido embora
Estou só um pouco cansado
Não sei se isto termina logo
Meu joelho dói
E não há nada a fazer agora

Essa parte, completa a parte anterior. "Ficou logo o que tinha ido embora" - Efeito. Ele está um pouco cansado, o efeito o deixou assim, e ele não sabe se essa necessidade de usar novamente e loucura por querer mais, termina logo. Realmente "Não há nada a fazer agora", afinal, ele já usou, e uma vez contaminado, sempre contaminado. O corpo pode não lembrar, mas a mente sempre o lembrará que ele usou esse meio.

Para que servem os anjos?
A felicidade mora aqui comigo
Até segunda ordem

Essa parte, podemos ver o que ele pensa das drogas por um outro ângulo. Pra que servem os anjos? Eles te dão proteção, lhe dão e trazem a felicidade, são o simbolo de pureza e harmonia. Pra que eles servem, se ele tem a felicidade ao lado dele? O que é essa felicidade se não as drogas?

Um outro agora vive minha vida
Sei o que ele sonha, pensa e sente
Não é por incidência a minha indiferença
Sou uma cópia do que faço
O que temos é o que nos resta
E estamos querendo demais

Um outro vive a vida dele, ele sabe o que essa outra pessoa sente, sonha e pensa. Isso ocorre, porque ele mesmo é esse outro. Quando ele usa droga, ele vira um outro. Uma outra pessoa. Ele é uma cópia do que faz, pelo fato de sempre fazer o mesmo de sempre. A cada dia, ele é uma cópia do que ele era ontem. O que eles tem (usuários), é o que resta, pode ser tanto as drogas, quanto a moral. E estão querendo demais, o que reforça o lado das drogas e dependência delas.

Minha papoula da Índia
Minha flor da Tailândia
És o que tenho de suave
E me fazes tão mal
Existe um descontrole, que corrompe e cresce
Pode até ser, mais estou pronto prá mais uma
O que é que desvirtua e ensina?
O que fizemos de nossas próprias vidas

Existe um descontrole, o descontrole das drogas, que corrompe e cresce, aumenta. Pode até ser o descontrole das drogas, mas ele está novamente pronto, mesmo sabendo que isso o fará mal.
O que é que desvirtua e ensina? As drogas te desvirtuam, te fazem o mal, quanto ao "ensina", temos dois lados: O primeiro, ensina o que ocorrerá, mostra o que acontece, ou então ensina, como no caso do Renato, que usava as drogas (assim como muitos) para ter inspiração. Tudo isso, acarreta ao resultado da vida deles.

O mecanismo da amizade,
A matemática dos amantes
Agora só artesanato:
O resto são escombros

O mecanismo da amizade, o modo de funcionar, a lógica dela, a matemática dos amantes, talvez a mesma lógica. A amizade talvez seja programada, pode ser também o afeto pelas drogas da parte dos usuários, crendo que ela seja algo mecânico e amigo. ao mesmo temo, são amantes dela e obviamente, seguem a lógica do uso das drogas, o numero de vezes que foram amantes.

Mas, é claro que não vamos lhe fazer mal
Nem é por isso que estamos aqui
Cada criança com seu próprio canivete
Cada líder com seu próprio 38

Ele deixa claro, que eles, usuários, não farão mal para ninguém, nem estão ali (usando droga) para isso, fazer mal. Cada líder com sua arma, o líder pode ser aqui um traficante (referindo-se as drogas) ou um político talvez... Cada crinça com seu canivete, a criança pode ser usuária de droga, ou então pode ser uma criança que trabalha com estas, sendo aqui, uma grande referência ao trabalho infantil e ao crime.

Minha papoula da Índia
Minha flor da Tailândia
Chega, vou mudar a minha vida
Deixa o copo encher até a borda
Que eu quero um dia de sol
Num copo d'água
Chega, agora ele mudará sua própria vida.

Ele da a ordem "deixa o copo encher até a borda" (e não descreve, como "deixo um copo encher até a borda"), "que eu quero um dia de sol, num copo d'água". Essa parte tem muitos e muitos modos de interpretar, e é bem difícil  creio que ele fez uma referencia aqui como: Com toda a vastidão de água para ele curtir num dia de sol, ele começa com simplicidade, em apenas um copo. Assim talvez, seja o modo que ele queira voltar a sua vida normal. Com simplicidade, de pouco em pouco...




A música é bem complexa, e tem todo um lado do Renato para si mesmo, e não somente para a sociedade, como muitas das músicas. "A Montanha Mágica" leva o nome, pelo fato de Renato ter lido o livro escrito por Thomas Mann, e por ter achado interessante talvez, colocou o nome da música, o mesmo nome do título da obra de 1924.

Analise e escrita: Eduardo Rezende 


31 comentários to "Interpretação: A Montanha Mágica"

  • Eduardo, adoro o seu blog e poderia falar muito dele. Mas agora queria te propor um desafio que também me foi proposto por um leitor do meu blog: a interpretação da música "O Livro dos Dias". Como "O Livro dos Dias" é também o nome do seu blog, achei que seria uma boa ideia. Se aceitas ou não o desafio, para me contatar uso o e-mail bloginterpretacaopessoal@yahoo.com

  • Bem, agora sim, Tha, sua tão esperada análise foi feita! E agora pude responder esse comentário, sem ser por email - feito lá atrás. Espero que goste da análise do Livro Dos Dias!!

  • O nome ''A montanha Mágica'' também não poderia ser porque as drogas causam um efeito alucinógeno,além do livro ,claro,eu sempre vi assim rs

  • Um fato interessante não é? Uma montanha de problemas, pra alguém que está sob efeito mágico. É um ponto não concreto, mas pode ser levado em conta, quando se trata de Renato, que nos abre um leque de opções!
    Obrigado, volte sempre!!

  • o copo dagua, que ese refere na musica, é a sede causada pelo uso de drogas, no dia seguinte essa sede e forte, e que se o dia passa tao devagar que se o dia coubesse em um copo dagua seria perfeito pra quem usou ou usa drogas, sabe da tal SECURA .

    acredito que o saco da heroina deve ser maior ainda.

  • Interessante, caro anônimo. Não havia visto por esse ângulo, mas acho muito ousado pensar dessa forma, e muito construtivo para essa música, que como tantas outras, são leques de análises.

  • Acho que a interpretação está errada. Na verdade creio que ele faz um misto da situação dele, da política no Brasil e toma como base o Livro "A Montanha Mágica" de Thomas Mann, analisando bem acho que ele se aproxima do personagem Hans Castorp na música.

  • Me assusta ver gente como o Wagner dizendo ''acho que a interpretação errada''. Faço das palavras do persongem Patrick Jane as minhas! ''There's no such thing'' HAHA. A forma como interpretamos e entendemos tudo na vida é tão diferente, cara ...
    A propósito, ótima interpretação. Me esclareceu muita coisa.

  • Parabéns pela interpretação; concordo exatamente com o que o Ayrton disse acima, todos nós interpretamos de forma diferente. Obrigada e parabéns pelo blog.

  • Muito boa a interpretação, mas tenho uma outra visao para o ultimo verso("Chega vou mudar a minha vida") ele quer mudar de vida mas o esta condicionado à heroína (Deixa o copo encher até a borda")e com isso quer usar de novo e ir até o limite do corpo (copo), sem ter uma overdose (sem transbordar) e a melhor frase é ("Eu quero um dia de sol num copo d'agua") "Um dia de sol" seria um dia com Deus e "Num copo d'agua" seria com o corpo limpo, sem droga, puro como a água.

    Abraço,

    Diego Domisciano

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  • Obrigado pela interpretação. Não ouvia muito essa música pq não entendia bem, só poucas coisas. Amei o nome do blog tanto quanto essa interpretação. Parabéns!

  • A flor da thailandia e a flor da canabis.

  • Este comentário foi removido pelo autor.
  • Não sou fã da Legião Urbana, mas gosto muito das músicas "A Montanha Mágica e Metal Contra as Nuvens", minhas expectativas para essa interpretação eram grandes, talvez seja boa, mas não para mim. Como diria meu amigo Badu: quanto maior a expectativa maior a decepção!

    O Blog é legal. Parabéns!

  • Quando diz "Que eu quero um dia de sol num copo d'água", é o oposto da expressão "Tempestade em Copo d'água". Deve ser um clamor por tranquilidade, calma...

  • Concordo com Wagner Amaro de Salles.

  • Ah, os haters... Sempre criticando superficialmente e nunca acrescentando nada válido.
    Eduardo, gostei muito da análise. Aliás, o próprio Renato, em entrevista à Folha comprova que falava das suas questões com as drogas nesta música:
    "Folha - Como foi sair dessa fase?
    Renato Russo - Eu estava me destruindo e, em vez de me matar com um tiro na cabeça, preferi procurar ajuda. Isso vem desde os 17 anos, mas no "V" foi a primeira vez que coloquei na música essas questões. "Montanha Mágica" é sobre isso. Eu era jovem e acabei entrando num beco sem saída.

    Isso foi me consumindo, eu ficava deprimido e não sabia o porquê. Achava que o mundo era horrível, igualzinho ao Kurt Cobain, nada mais valia a pena. E isso é estranho porque, se eu achar um dia que as coisas não valham a pena, quero estar com a cabeça no lugar, e não com o corpo cheio de toxinas. Parei com todo tipo de droga e vi que as coisas não eram tão ruins"
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u18180.shtml

  • Nós somos privilegiados de ouvir uma música dessa, apreciar e entender o que ele está falando, pois o atual processo de emburrecimento das massas não está mais deixando espaço pra artistas de nível, hoje em dia ninguém mais quer ouvir uma música e tentar decifrá-la pois os cérebros, principalmente dos mais jovens, já vem com cansaço de fábrica, porisso se ouve tantos "tche tcherere tche tches" e tantos "bara bere beres", sem falar nos "ai se eu te pego" e nos "sou foda na cama te esculacho", música pra quem não pensa é o que impera porai, infelizmente =/

  • Ayrton, está equivocado, pois a interpretação depende de ler A montanha mágica. E levando em conta seu comentário, terroristas adoram interpretar seus livros sagrados (sejam cristãos, Islâmicos, etc.), a interpretação equivocada "caga" a obra. Leia Thomas Mann, reflita, ouça a música e reflita. Se após tudo isso resumir que ele só fala de drogas.... Desiste dessa vida 'cara'

  • Ayrton, está equivocado, pois a interpretação depende de ler A montanha mágica. E levando em conta seu comentário, terroristas adoram interpretar seus livros sagrados (sejam cristãos, Islâmicos, etc.), a interpretação equivocada "caga" a obra. Leia Thomas Mann, reflita, ouça a música e reflita. Se após tudo isso resumir que ele só fala de drogas.... Desiste dessa vida 'cara'

  • Ayrton, está equivocado, pois a interpretação depende de ler A montanha mágica. E levando em conta seu comentário, terroristas adoram interpretar seus livros sagrados (sejam cristãos, Islâmicos, etc.), a interpretação equivocada "caga" a obra. Leia Thomas Mann, reflita, ouça a música e reflita. Se após tudo isso resumir que ele só fala de drogas.... Desiste dessa vida 'cara'

  • Concordo com a visão de Wagner, embora uma boa parte da música, mesmo tendo sido declarado por Renato na folha de SP, refere-se à uma fase das drogas, não acredito que a droga tenha sido o único pano de fundo para a construção da letra. Renato era culto e se colocou esse título na letra, é porque com certeza tem muita relação com o livro.

  • Ótima interpretação!

  • Gostaria que você fizesse a interpretação da musica "Esperando por mim"
    Obrigada!

  • Legal a interpretação. Neste link eu faço uma interpretação psicológica da letra. Confira: http://apsiqueeomundo.blogspot.com.br/2016/06/a-montanha-magica-e-dependencia-quimica.html

  • Se passar por desentendido quando se é pego por algo que não deveria estar fazendo, mesmo sua própria consciência nos leva sempre a querer pensar que houve uma inocência ou desapego do perigo de pegar no que sabemos é usado para cortar ou perfurar a consciência e nos fazer pensar que podemos matar o que nos atormenta sem que sintamos a dor por ter usurpado a felicidade, cada criança com seu próprio canivete é o quadro pintado revelando que quero fazer algo com a dor de ter manchado uma criança que gostava de ter por perto ou dentro de mim.

    Jose Humberto Medice

  • Nunca pensei que o preconceito contra usuários de drogas poderia ser descrito como interpretação dessa música, minha opinião é que você ao tentar dar uma lógica a um sentimento, esqueceu-se de colocar o ar lírico em primeiro plano, o lirismo da música tem muito mais a ver com transcender o pensamento e sentir o gosto da desordem que é cada trip. Compreendo sua ignorância com o assunto, pela maneira que escreve você não é muito de pensar com o sentimento e não é muito de usar drogas, mas por favor não mate publicamente uma letra dizendo o que ela é no seu ponto de vista, ao menos é claro que tenha algo de generoso a apresentar, a única coisa de generosidade que deu foi um conceito seu negativo a quem usa drogas.

    Um abraço fedorento de maconha,
    Alisson Lima.

  • Boa tarde,

    Certa vez um dos vários fãs da banda enviou uma cartão ao Renato perguntando de onde ele tirava tantas ideias para as música que escrevia. A resposta de Renato foi: leia livros. A carta continha uma lista de livros aos quais recomendava. Nessa lista, constava um dos livros de Thomas Mann, A montanha mágica. Logo, a ideia de que o título da música tenha relação com o título do livro é tão valida quanto as outras que se discutem.

    Link da carta:https://blogamargo.files.wordpress.com/2007/08/renato1.jpg

    P.S.: Ainda pretendo ler o livro para ter uma ideia melhor da possível relação com a música. :)

  • Penso exatamente como vc anônimo. O sentido do copo, encher até a borda simboliza tipo 'até encher o saco' digo chegar no limite, no caso o usuário de drogas normalmente fica fugindo de lidar/resolver algum problema/trauma que dói muito. Por ele diz que basta, ele chegou no limite e finalmente que um dia de sol, num copo d'Água ( em paz contrário a tempestade), e como todo usuário só vence o vício por aí, ele confirma ele vai fazê-lo.

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