Com pensamentos positivos e defendendo o ato da sociedade se amar, os sentimentos e pensamentos desses atos amorosos, Renato Russo nos traz em "As Quatro Estações", a canção "Monte Castelo", apresentando um ritmo agradável e que combina perfeitamente com a letra.

Com a cruza de versos da Bíblia e de Camões, Renato fez perfeitamente uma mensagem de amor. Esperto? Sim, pois usou palavras alheias para se inspirar, mas afinal, eu também, assim como todos os colegas, fazemos isso, para podermos analisar. Errado? Nunca. Fez perfeitamente uma obra que foi a cara do disco, considerado pelo lado crítico, as opções e gostos além da ditadura, e ao lado religioso, às mensagens presentes em "Meninos e Meninas" e claro, abertamente, em "Monte Castelo".
Segue-se a letra e a interpretação desta:

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

Ainda que nós todos (usarei o plural porque apesar de estar em "eu", na música, ela se encaixa perfeitamente e totalmente, em todos nós), pudéssemos falar a língua dos homens, e tivéssemos e conhecimento de todas elas, e além disso, pudéssemos falar a língua dos anjos, sem amor, de nada seríamos.
O amor, ele move mais do que a sabedoria mundana. O amor não é carnal, nem humano (ou totalmente), o amor é espiritual e vem do afeto de um, ao outro.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal,
Não sente inveja ou se envaidece.

Aqui, fica claro, para todos nós, religiosos ou não, Legionários ou não, fãs de poesias de Camões, ou não, e que todos nós podemos tirar as conclusões sem conhecimento ou aprofundamento no tema.
O amor é a verdade, pois ele é verdadeiro. Ele caminha nos rumos da verdade e do que é verdadeiro entre os humanos. Ele é bom, por justamente ser verdadeiro, e por ser bom, não quer o mal, nem a inveja, nem a vaidade, nem nada de humano ou de impefeições do homem.

O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Essa parte é muito poética, mas podemos capitar mensagens nas entrelinhas e ficam coisas claras e de extrema importância quando falamos de amor, pois são essas figurações que nos mostram as características do amor segundo Camões:
O amor é fogo que arde sem se ver; Ele queima por dentro, como diria Chico Buarque. Ele é o fogo da paixão. Ele é o fogo insaciável do desejo .É ferida que dói e não se sente; Ele machuca por dentro e por fora. Ele faz morrer e faz matar. Ele é a causa de feridas internas, sentimentais, psicológicas, carnais e físicas.
É o contentar-se mesmo descontente e e é a dor que se manifesta sem doer.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.

Ainda, que eu pudesse ter o dom da Profecia, que eu tivesse o direito de falar a língua dos homens, e a sabedoria de falar a língua dos anjos, sem amor, eu nada seria. Pois é ele quem move o mundo, e é ele quem move a vontade de querer saber falar e usar as coisas.

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.

Novamente, isso se repete: A poesia deixa nas entrelinhas as características do amor.
O amor é o não querer mais que bem querer. É o não querer amar, mas bem querer a pessoa. Ou não querer a pessoa, mas querer amá-la. É uma contradição, como será dito.
O amor é solitário andar por entre a gente. É o individual, é o cada um. Ele é o não contentar-se em estar bem de contente, e então, vem a frase X:
É o cuidar que se ganha em se perder. É o cuidar de quem está agora, após decepções e mentiras, que levaram a falta do amor, uma vez que ele é a verdade.

É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.

O amor é o estar preso por vontade. Ele é mais do que o que círculo preenche o vão dos dedos, ele é o querer estar preso à outro não só simbologicamente mas afetivamente.
Ele é servir à quem vence, é o tornar-se vencedor. É "um ter com quem nos mata a lealdade", que em outras palavras seria "É estar falando/estar junto/estar debatendo com quem nos trai a confiança".
Como digo, ele é contrário à si mesmo. Não que o amor seja, mas ele nos torna assim, contrários. Pois ele transforma.

Estou acordado e todos dormem.
Todos dormem. Todos dormem.
Agora vejo em parte,
Mas então veremos face a face.

Como dito na Bíblia, também em Coríntios (1 Coríntios 13:12): "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido". O Amor o deixa acordado enquanto todos dormem. O amor o faz ver agora em parte, mas ele busca ver face a face. Ver o inteiro. Ver por completo. Entendê-lo ou dele fazer parte. Mas o amor apesar de tantas características e descrições, é algo que foge da razão humana...

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.

É só o amor que conhece o que é verdade.
É só o amor que é verdadeiro, e nos torna verdadeiros.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

Como dito, o amor foge da razão humana...
O amor foge de explicações.
E mesmo que ainda falássemos a língua dos homens, dominássemos seus conhecimentos humanos e mesmo que falássemos a língua dos anjos e pudéssemos ter as ideias santas ou divinas, sem o amor, que pode ser tanto a arma, quanto a defesa, nada seríamos.


A parte presente na música, está disponível em Coríntios, e o poema de Camões.
Quem se interessar, acho interessante acessar esse link e poder ter maior conhecimento sobre.

Análise e texto: Eduardo Rezende


5 comentários to "Interpretação: Monte Castelo"

  • Oi, Edu!
    Como já falei pro pessoal lá no Interpretação Pessoal, creio que o que defina a música realmente não seja nem as citações bíblicas nem camonianas, mas o título.
    Saber que na Batalha de Monte Castello lutava-se por paz e, consequentemente, amor é muito importante pra entender essa música que é aparentemente muito fácil. Mas creio que disso você já tenha conhecimento.
    Agora, meio para complementar o que você disse, acho que "Estou acordado e todos dormem" está relacionado ao fato de ele saber que é o amor o que mais importa e os outros, não. Quando interpretei essa parte, inclusive, considerei os versos como do Renato, como se ele houvesse apenas se baseado nos versos bíblicos.
    Enfim, ótimo trabalho como sempre, embora ache que deveria ter relatado sobre Monte Castello. Mas isso não é nada que tire teu mérito. Parabéns!

  • Oi Tha! Há quanto tempo! Você andou sumida daqui! rs.
    E sim, já li sua interpretação uma vez, e realmente acho que se enquadraria, mas eu ainda creio que essa parte seja mais isso que analisei. Mas tirando isso, ambos concordamos que essa obra é bela e extremamente poética.
    Meu muito obrigado Tha, não suma e volte sempre. Meu obrigado novamente pelos elogios.

  • Renato Russo usou nesta linda música texto bíblicos, que deveriam ser considerados juntamente dois aspectos, a guerra, li certa vez que Renato se referiam a um tio que tinha lutado nesta guerra, ... estou acordado e todos dormem, imagino que se referia a uma vigilância durante a guerra, e pelo o outros aspecto a violência das guerras em contraste com o amor ... agora vejo em parte ... devemos levar em consideração o que o Apóstolo Paulo se referia... a uma pessoa DEUS, a quem ele desejaria conhecer depois de sua morte, o Amor Perfeito.

  • Essa letra é linda e tem mesmo um tom de esperança é bem diferente algumas musicas que tem um tom depressivo.

  • Eduardo, amigo. Realmente esta cançao não pode ser comparada. O Renato russo é um gênio.....mas,quando Paulo cita " agora vejo em parte, mas então veremos face a face' ele está dizendo que neste mundo físico, não é possível vermos totalidade do amor, mas sim quando sairmos deste corpo, tomaremos consciencia de como realmente o Amor é. Não se trata de " o Amor o faz agora ver em parte" como você escreveu. É ele que só consegue ver o amor em parte, por causa da limitação do plano físico. Grande abraço e felicidades.

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