Vindo do álbum que viria à ser considerado "depressivo", "triste" e "melancólico" por muitos críticos, fãs e afins, o último álbum da Legião traria nomes de duas das canções da banda. Um dos nomes viria justamente no álbum posterior - "Uma Outra Estação", sendo a sétima faixa, com o nome de "A Tempestade", o outro nome, viria justamente no álbum de assunto, cuja letra será analisada nessa postagem.
"O Livro Dos Dias" é a ultima música do álbum "A Tempestade", e pode ser também, considerado o título desse álbum. Tendo já uma ideia de ser "melancólica", "depressiva" ou "triste", a letra é considerada "Introspectiva", por justamente fazer um exame de conclusão interior. É uma música que abre um leque de análises, mas que por interpretação própria, julgo que seja justamente algo de pensamento e envolvimento de uma só pessoa, cujo personagem estava no caminho da morte.
Lembrando, que esse seria o ultimo álbum da Legião, com Renato ainda vivo.
Segue-se a letra e análise da música,  uma música que tem uma beleza própria e diferente de muitas da Legião. Não é um protesto, não é uma história, não é uma reclamação. É um apelo. Um apelo pela vida de quem acaba de descobrir uma doença e que sabe que seu caminho é a morte. Talvez seja isso: "O Livro dos Dias" seria um canto ou versos dedicados à quem fica, ou de quem fica pra quem vai.

Ausente o encanto antes cultivado
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado

 Ausente é o encanto que antes era cultivado. O encanto da vida, a vontade de viver, o desejo do amanhã, já se tornou ausente, pois ele - Renato - percebe um mecanismo indiferente, uma vontade de indiferença, uma vontade de não se mover, não satisfazer-se e de não lutar, percebe que seu corpo e mente estão indiferentes quanto à vida, esse mecanismo - pensamentos, ações e sentimentos - teimam em resgatar-lhe sem a confiança, a essência de um crime, de algo errôneo que no momento era sagrado.

Meu coração não quer deixar
Meu corpo descansar
E teu desejo inverso é velho amigo
Já que o tenho sempre a meu lado

O coração - sendo então a personificação dos sentimentos e desejos - não quer deixar o corpo descansar - sendo aqui, a personificação ou até o literal do que seria o físico, próprio e material.
"E teu desejo inverso é velho amigo", o desejo da terceira pessoa, era o desejo da vida. O desejo de "continue lutando", "continue sobrevivendo", "continue vivo", mas Renato acolhe apenas como um velho amigo, como algo íntimo, o inverso desses desejos. Acolhe como pensamentos e sentimentos em seu coração que não lhe deixa o corpo descansar, o desejo de morte, o desejo de continuar "semi-morto", a depressão e o convite de estar à beira da morte e não o inverso, que seria a vida, seria continuar vivo e lutando.

Hoje então aceitas pelo nome
O que perfeito entregas mas é tarde
Só daria certo aos dois que tentam
Se ainda embriagado pela fome
Exatos teu perdão e tua idade
O indulto a ti tomasse como bênção

Hoje então aceita de fato, o que ele perfeitamente entrega, mas sente que é tarde, a própria vontade de viver, pois ele sente que poderia ter feito mais cedo, mas já sentiu que poderia ter feito mais tarde. Só daria certo aos dois que tentam viver, ele e a terceira pessoa no caso, se ainda ele estivesse embriagado - enlouquecido ou sobre o efeito, não necessariamente da bebida - pela fome - não no sentido de comer, mas no sentido de estar enlouquecido pela abstinência do viver. Exatos o perdão por quem ficou, e a idade em que ele sente a necessidade de estar pronto, o indulto, a graça ou privilégio tomou ele como bênção. Ele, quem tem perdão exato por tudo o que ficou, e idade exata para ter "feito tudo o que deveria fazer" ou julgar como "sendo tudo feito".

Não esconda tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho
Força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores

A última parte da música - separada pelo blog para análise crítica - demonstra algo próprio sentimentalmente por Renato, mas que pode ser encaixada por todos os que se sentem em tal momento, não no caso, de desespero e angústia, ou sentimento de morte, mas que se sentem mal, traídos ou em "seu fim" sentimental.
Ele pede pra que não escondam tristeza dele, pois todos parecem estar sendo falsos alegres - lembrando os versos de "A Via Láctea" - pois todos se afastam quando o "mundo" está errado, ou seja, todos se afastam quando acontecem coisas ruins. Se afastam quando temos um "catálogo de erros", e é nesse ponto que acho interessante comentar. Esse "catálogo de erros", seria o livro que todos nós temos, que seria a memória própria nossa, que será falada algumas linhas seguintes.
Se afastam quando precisamos de um momento de carinho, de força, um momento em que necessitamos de cuidado, e talvez seja esse o desabafo - cuja carapuça serve para todos nós - que ele tanto quer passar:
O livro de nossos dias... O livro que marca, que tem começo e fim, em 24 horas, 365 dias, e muitos anos. Muitos anos, que até são interrompidos, ou adiantados, como os anos do Renato.
O livro das flores... O livro que nasce, desabrocha, e um dia morre. Mas que tem beleza diferente, cheiros diferentes e formatos diferentes, dependendo da "espécie" em questão - pessoas.
O Livro do destino... O destino que não é programado, o destino que pode ser previsto porque tudo passa, mas o destino que ninguém pode ter conhecimento...
Esse livro, é o um catálogo, ele pode ser a escolha de caminhos, ele nos dá leques de opções, escolhas, decisões, passos, pessoas, empregos, etc. Esse livro, é um catálogo de acertos, um catálogo de erros, próprios e alheios.

Esse livro é o "Catálogo de erros", que nos dá a noção de quão imperfeito é o ser humano:
Nós somos um livro, que constantemente é lido, por pessoas ao redor, ou até analisado por nós mesmos, página por página - momentos por momentos.
Esse livro, é lido, relido, analisado e interpretado. É um livro que pode ser aberto, é um livro que pode ser fechado. É o livro que simbolicamente somos nós, e que muitas vezes, acaba sendo fechado antes da hora, como Renato, e tantos outros - conhecidos ou não.
Todos nós somos um livro, que espera ansiosamente ser lido por alguém ou analisado por nós mesmos.
Somos um livro de dias, de tempo. Somos um livro de flores, de momentos, encanto e pureza. Somos um livro de destino, que um dia é começado em seu prólogo e terminado em seu epílogo.
Somos um catálogo de erros, por justamente sermos imperfeitos. - Eduardo Rezende
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Análise e escrita: Eduardo Rezende
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Interpretação mais do que importante. Para minha história - música descoberta em um momento que coube e se encaixou perfeitamente. Para o meu blog - que leva esse título e alguns de seus versos, em sua página. Espero, realmente, que consigam ver a música com os mesmos olhos ou compará-la aos meus pontos de vista.



37 comentários to "Interpretação: O Livro Dos Dias"

  • Adoraria ver Acrilic on Canvas

  • Olá Bárbara, obrigado pela opinião! rs.
    Realmente, Acrilic foi uma das que deixei passar... Posso interpretá-la quando acabar a ordem alfabética, refazendo essa rota, com outras que deixei passar - porque posso ter achado sem grande necessidade, ou sei lá.
    Obrigado, querida, volte sempre!!

  • Ótima interpretação, já acompanho o seu trabalho a um certo tempo mas hoje decidi comentar, continue com esse trabalho suas interpretações são ótimas e ajudam muito a perceber certos detalhes que passam desapercebidos por muitos de nós leitores. Um abraço!

  • Muito, muito obrigado mesmo! Eu fico muito feliz de ler isso, e saiba que é isso o que nos move à continuar por aqui! Logo logo o blog mudará sabe? rsrs a pagina ficará diferente, mas isso ainda é supresa. Mas enfim, muito obrigado pelos elogios e fico feliz também de saber que pensa assim. Continue sempre por aqui! Siga, comente, faça sempre o que puder, afinal, a verdadeira Legião Urbana, somos nós.

  • Maravilha!

  • Muito obrigado! Seja sempre bem vindo!!

  • As primeiras partes do sua interpretaçao foi ótima, porem a ultima bateu na trave, pois o que da a entender é que ele está falando de um livro que é um catálogo de erros, livro das flores, livro do destino, livro de nossos dias e livro de nossos amores, a Biblia. mas foi legal.

  • Realmente, teria nexo crer que a Bíblia seria esse grande Livro Dos Dias, mas ainda creio que seria um "destino escrito", esse "Livro dos Dias".

  • Renato... Esse escrevia sem piedade! Tipo o guimarae rosa, sei la... Metade ninguem intende. O legal mesmo eh ouvir e interpretar do seu jeito, mas como intender algumas musicas, partes ou ate nomes eh dicicil esse blog aqui ta ajudando muito a tantar descobrir o que eh que ele pensou quando escreveu essas letras.
    Parabens, eh muito bom seu trabalho, a ideia eh genial, bom saber que existem bons fas do renato e da legiao...parabens mesmo! E essa musica em particular, eu achei uma das melhores interpretacoes e discordo do amigo que disae que poderia ser a biblia, pois o Renato mesmo dizia nao ser muito religioso, apezar de acreditar em deus...

    Abraços.

  • Me senti muito grato pelos elogios, e realmente, muito satisfeito, em poder ler tais palavras.
    Muito obrigado, seja sempre bem vindo, e quando houver dúvidas ou críticas, deixe escrito em qualquer postagem ou em qualquer página, que eu lerei e tentarei ajudar! Muito obrigado mesmo, seja sempre bem vindo!! Amplexos.

  • Tu és incrível Guri!
    Que bela em absoluto tua interpretação de uma das mais perfeitas composições de Renato!
    Virei tua fã sem precisar conhecer-te, tuas palavras são fortes e faz com eu as quisesse ter escrito com tão profundo sentimento. Vou estar sempre e para sempre aqui, por esse teu Blog mágico! Se puderes conheças o meu |www.jeitolunatico.blogspot.com| será uma honra recebeste por lá. Um Grande beijo e um Abraço com toda admiração que conseguistes imaginar.

  • olá,
    Ficou boa a interpretação das duas primeiras estrofes,porém na terceira o Renato se refere ao filho que quando pequeno não o chamava de pai fato que o magoava muito.E em algum momento o que era indulto para o filho se torna uma benção o seu pai.O próprio Renato se afastou de todos com um intuito de que seu verdadeiros amigos viessem até ele,mas eles não vieram.E na última estrofe com toda certeza do mundo ele se referia a biblia.Pequise sobre a biografia do Renato e confirmará estes fatos.Abraços e parabéns pela iniciativa.

  • Ótimo ponto, muito obrigado, seja sempre muito bem vindo! =)

  • PUTA MERDA CARA!!!Muito bom mesmo vlw ... Perfeito cara.o/

  • Muito obrigado, muito mesmo! Volte sempre!

  • Muito bom, cara! Tenho um blog da legião e uma página no facebook sobre a banda. Encontrei seu blog por acaso e já estou divulgando na minha página. Você fez uma ótima interpretação dessa que considero a letra mais enigmática da banda: realmente, a letra fala o tempo de alguém que está diante da morte e reflete sobre a ausência do encanto antes cultivado, pois a vida escorre de suas mãos. força sempre!

  • Muito legal seu trabalho, e3u gostei especialmente da parte "não esconda a tristeza de mim"... Realmente existem muitos falsos alegres.
    Parabéns continue com seu trabalho.

  • Parabéns pelo trabalho !!!!

    Vc postar as atualizações no face ou algo similar ?

  • Na verdade o tal livro é o livro de mórmon, ele faz algumas referências a ele em outras músicas, mas não é muita gente que entende. Ele conheceu esse livro em um hotel e alguns élderes dessa igreja visitaram ele algumas vezes.

  • Parabéns a todos pelos comentários, é muito bom relembrar situações e sentimentos da época....e que são tão atuais quanto foram....Vivenciar algumas situações é ser empático a vida do Renato...

  • Ótima interpretação! fazia muitos anos que não ouvia essa música, sonhei com a melodia dela e quis matar a saudade, e o legal é que ela tbm se encaixa em um momento pelo qual estou passando, essa reflexão contribuiu muito para rever alguns pontos em que eu estava indecisa, obg pela interpretação e viva ao Renato que nós deixou tantos presentes.

  • Fantástico! Meus parabéns!

  • Chorei com sua interpretação, penso que seria uma honra pro Renato saber que existem pessoas que ouvem suas músicas mas não ficam só nisso, pessoas como você que interpretam e tiram o máximo de proveito da música, mostrando a sua verdeira face e ajudando muitas pessoas, como eu. Parabéns!

  • Necessito da análise e intepretação da música "Uma outra estação"

  • Parabéns Eduardo, na minha opinião você conseguiu expressar exatamente o sentimento do Renato quando ele escreveu essa que é sem dúvida a mais linda canção da legião.

  • Este comentário foi removido pelo autor.
  • Parabéns pela interpretação...
    Gostei muito!!!

  • Parabéns pelo trabalho, muito bom.

  • Olá. Muito bom. Entretanto o que você usa para interpretar?
    Como base, como início?
    Sabendo que o eu de qualquer artista é subjetivo.
    Podemos interpretar através da história de vida,momento no Brasil, etc entretanto, será?

  • Esta letra fala de um relacionamento que se acabava, não gostei desta interpretação feita, ela pode ser interpretada linha a linha tranquilamente.

  • Amei essa sua interpretação, ta de parabéns...!!! Queria que interpretasse a música, "L'aventura"

  • Amei essa sua interpretação, ta de parabéns...!!! Queria que interpretasse a música, "L'aventura"

  • Amei essa sua interpretação, ta de parabéns...!!! Queria que interpretasse a música, "L'aventura"

  • muito boa sua analise. profunda e muito poetica.

  • Rapaz, tenho outra opinião a respeito da análise da canção,na minha ótica há equívocos na sua avaliação
    .Uma dica, cuidado com o uso da crase pois há colocações indevidas.

  • GRAPHITE MACHINE
    E UMA MAQUINA DE GRAFITE DESCOBERTA POR CRIPTOANALISE O LEGIAO URBANA PODE ACABAR COM A AGUA DO MAR PEGUE UMA CAIXA DE 12,5X5 CM CORTE UM PAPEL EM FORMATO DE P COLOQUE A CABECA DO P SOBRE A CAIXA,A PONTA DO PE DO P AFASTE DA SUPERFICIE DA CAIXA COLANDO-A NA PONTA DA PALETA PARA ISOLAR DA VELOCIDADE DO SOM.
    ENTAO PARA FUNCIONAR CADA RISCO QUE FOR FEITO NA CABECA DO P OU PESO QUE DEIXAR SOBRE A TINTA IRAR DOBRAR EM MENOS DE UM SEGUNDO.
    ESSA TECNOLOGIA PODE SER USADA EM ROUPA.
    O NOME MAQUINA DE GRAFITE PORQUE O GRAFITE SE CONCENTRA MAIS ENERGIA ENQUANTO A TINTA DA CANETA E LIQUIDA E SE ESPALHA.
    E UMA MAQUINA DO TEMPO VOCE CONTROLA O TEMPO PORQUE O TEMPO NO RELOGIO NAO VAI PASSAR SE ESTIVER PERTO DA MAQUINA DE GRAFITE E O CORPO VAI PARA O FUTURO.

  • Realmente tudo indica que a última parte faz referência ao Livro de Mórmon. Em uma oportunidade o próprio Renato Russo comentou que chegou a ouvir algumas palestras com os missionários lá na Ilha do Governador (RJ). Ele disse também que gostou do livro e das palestras. Inclusive em uma das músicas, "Eu Era Um Lobisomem Juvenil", tem uma expressão que, segundo ele, foi tirada do Livro de Mórmon, 'Juíz Supremo'. " Quando ele diz na música "este é o livro de nossos dias " se refere ao que está escrito no próprio livro.

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