Vindo do sexto álbum da Legião, "O Descobrimento do Brasil", "Os Barcos" é uma letra de esperança e de um término de uma relação.
Com uma letra muito simples e interessante de se analisar, a música nos passa uma moral interessante da obsessão pelo próximo e do sofrimento causado pela perda de alguém num relacionamento amoroso.
Segue-se a letra e a análise da faixa-sete, escrita por Dado e Renato:

Você diz que tudo terminou

Você não quer mais o meu querer
Estamos medindo forças desiguais
Qualquer um pode ver
Que só terminou pra você

A terceira pessoa (que pode ser tanto Ele quanto Ela, se tratando de Renato Russo), diz que tudo terminou, e não quer mais o "querer" que ele oferece.
Renato diz frases interessantes como "estar medindo forças desiguais", no sentido de "estamos tentando mostrar quem é mais forte", mas ele sabe que não é, porque não se conforma com esse fim, porque como ele mesmo diz, qualquer um pode ver, que só terminou pra terceira pessoa. Pra ele, esse amor ainda continua e ele sofre com esses sentimentos que ficaram.

São só palavras, texto, ensaio e cena
A cada ato enceno a diferença
Do que é amor ficou o seu retrato
A peça que interpreto,um improviso insensato
Essa saudade eu sei de cor
Sei o caminho dos barcos

Aqui, é a parte mais poética, dessa letra que é sobretudo uma grande genialidade retratada em música.
Renato compara a vida com um teatro, e sua falsidade de estar bem após esse fim de relacionamento, como um papel paralelo, uma vida alheia que um ator tem.
São palavras e textos as respostas automáticas de "estou bem" e "não sinto falta", e ensaios que fazem cenas quando ele deve dizer essas frases ou realmente fingir que está tudo bem e que não sente falta, a cada ato, ele encena a diferença, o que não é ele, o que não é do seu jeito normal - igual.
Do que é amor, ficou apenas um retrato, assim como seria dito por Adriana Calcanhoto em "Devolva-me". Renato finaliza essa parte dizendo que essa peça (vida) que ele atua (vive) é um improviso insensato e que a saudade que ele está tendo no momento, ele sabe de cor, de tanto que decorou esses momentos, de tanto que viveu essas lágrimas e vazio, pois ele sabe o caminho dos barcos, que ao meu ver, seria algo como "Sei o caminho que as coisas levam".

E há muito estou alheio e quem me entende
Recebe o resto exato e tão pequeno
É dor, se há, tentava, já não tento
E ao transformar em dor o que é vaidade
E ao ter amor, se este é só orgulho
Eu faço da mentira, liberdade
E de qualquer quintal, faço cidade
E insisto que é virtude o que é entulho
Baldio é o meu terreno e meu alarde
Eu vejo você se apaixonando outra vez
Eu fico com a saudade e você com outro alguém

Há muito ele se sente alheio de tudo, e após algumas ideias ditas ali, ele diz as seguintes frases: " eu faço da mentira, liberdade" ele se sente livre do outro, quando diz coisas falsas sobre si, complementando que "de qualquer quintal faz cidades" que em outras palavras, ao meu ver, seria como dizer que de qualquer canto, ele faz algo maior, consegue fazer coisas grandes de coisas pequenas, talvez comparando isso aos seus problemas, à suas emoções e aos sentimentos que está vivendo em solidão, silêncio e vazio. Renato diz ainda que insiste que é VIRTUDE o que é ENTULHO, entrando essa frase também, como algo simbólico e poético: Ele insiste em dizer que esse amor perdido seria virtude sabendo que isso é entulho. Ele insiste em crer que é bom e construtivo, algo que já foi usado e hoje é lixo. Renato finaliza, ainda dizendo que vê essa terceira pessoa se apaixonando outra vez, que ele fica com a saudade e ela, com outro alguém.
Que enquanto ele sofre por ela (terceira pessoa), ela está com outra pessoa, esquecendo-se dele.

E você diz que tudo terminou
Mas qualquer um pode ver
Só terminou pra você
Só terminou pra você

Finaliza ainda, demonstrando e complementando palavras anteriores.

A terceira pessoa diz que tudo terminou, aos quatro ventos foi falado e todos sabem que tudo terminou, mas qualquer um pode notar, que só terminou apenas pra um dos lados. Que o outro lado está em desequilíbrio e total solidão. 



Análise e Interpretação: Eduardo Rezende


8 comentários to "Interpretação: Os Barcos"

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