Interessante analisar e perceber que o modo com que Renato conseguia esconder muitas vezes, sua opinião ou as próprias emoções dentro de uma música, criando uma história totalmente alheia do que queria retratar, apenas deixando, alguns pontos que formam paralelos de comparação, um bom exemplo disso, além de Metal Contra As Nuvens, Daniel na Cova dos Leões, Andrea Doria e Clarisse, seria Soldados.
Soldados, ao contrário das outras músicas, e próximo apenas de Daniel na Cova dos Leões, é uma letra muito simbólica e que pode ser levada aos dois lados. Nessa postagem, mostrarei à vocês, leitores, o lado que Renato colocou nas entrelinhas, um lado próprio, despercebido. Um lado que deixa ao canto o pré-conceito de que há soldados na música, colocando sobre a luz, apenas o lado humano do cantor que apresentou essa música em seu primeiro disco, sendo ela, a faixa de número nove do álbum que levaria o mesmo nome da banda, Legião Urbana - lançado em 1985:
Nossas meninas estão longe daqui
Não temos com quem chorar e nem pra onde ir
Se lembra quando era só brincadeira?
Fingir ser soldado a tarde inteira?
Mas agora a coragem que temos no coração
Parece medo da morte mas não era então
Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto
Tenho medo e eu sei porquê:
Estamos esperando.
Quem é o inimigo?
Quem é você?
Nos defendemos tanto tanto sem saber
Por que lutar.

O nosso senso comum ao ouvirmos uma música dessa, nos faz imaginar uma cena de guerra, onde se fala apenas de batalha, e a única batalha que Renato quis passar, foi um conflito pessoal...
O personagem se vê longe das meninas do grupo, ele diz que não tem com quem chorar e nem tem pra onde ir, e que analisa sua situação de agora, comparando de quando criança que era tudo apenas brincadeira. O ser "soldado" não se refere apenas ao vestir uma farda, mas à vestir um caráter que não é próprio e usar uma mentalidade que é forçada.
As meninas do grupo estão longe dos meninos, Renato ao se ver longe de figuras femininas, se depara com problemas pessoais e vê que não tem para onde ir nem com quem chorar, está sem um porto seguro, se depara com a pessoa de sua infância, de quando imaginava que ser soldado era apenas por brincadeira, não encarava portanto, as responsabilidades que passa agora, com a seriedade devida.
Mas agora a coragem que eles têm no coração, parece e ao mesmo tempo não parece, medo da morte. A coragem que eles têm, é de enfrentar sua covardia.
Ele tem medo de dizer à terceira pessoa o que lhe quer tanto, ele tem medo, e sabe o porquê, eles estão esperando. O "estar esperando" se refere à "alguém espera nossa força", "alguém espera nossa nobreza", "alguém espera atos que correspondam ao nosso caráter". Mas eis que surge o problema, quando seus atos são mascarados por uma pessoa que não é, e até mesmo, eles esperarem muito de si e saberem que não são o que deveriam ser.
Renato se depara vendo que analisa a terceira pessoa como um inimigo, uma afronta. Ela o perturba, mas não o querendo perturbar. Sua pessoa o incomoda, não querendo incomoda-lo nem ele querendo ser incomodado. E então, ele se depara, junto à terceira pessoa, vendo que não há lógica em se defenderem tanto e tanto sem saber o porquê de lutarem. "Porque se defenderem, se o que lutam é exatamente tudo aquilo que eles são?" (citação de Marcianos Invadem A Terra)

Nossas meninas estão longe daqui
E de repente eu vi você cair
Não sei armar o que eu senti
Não sei dizer que vi você ali.
Quem vai saber o que você sentiu?
Quem vai saber o que você pensou?
Quem vai dizer agora o que eu não fiz?
Como explicar pra você o que eu quis

Somos soldados
Pedindo esmola
E a gente não queria lutar.

Eis a parte que desmascara, literalmente, o nosso soldado.
As meninas estão longe de onde se encontram, tanto fisicamente quanto emocionalmente, ele se depara longe delas em ambos os pontos. De repente, ele o vê cair, podendo ser tanto pelo sentido dele aparecer, quanto do sentido dele ter uma fraqueza em batalhas, e ele se pegar amando e se perguntar o que sente, e se ver deparado sem ter o que dizer.
Quem vai saber o que você sentiu? Será que foi compatível com o que pensei? Quem vai saber o que você pensou? Será que será o mesmo ponto de luta que busco? Quem vai dizer agora o que eu não fiz? Deveria ter agido dessa forma? Como explicar pra você o meu real interesse? Conflitos de um soldado que se vê caído em campo de batalha.
A ultima parte, Renato nos deixa um grande ponto em quê se pensar. Justifica mais uma vez que são soldados, e que se encontram em uma situação que desfavorece a farda que usam. Encontram-se fardados pedindo esmolas, pedindo ajudas, no fundo do poço emocionalmente e socialmente, tudo isso, porque não queriam lutar, tanto pelo amor que um demonstrava pelo outro, quanto pela briga social que deveriam ter enfrentado, mas que o orgulho à farda vestida, e a máscara dura que ela os faz por, não os deixaram batalhar por mais uma bandeira.

Renato em Soldados, coloca o seu brilhante papel de ocultar um lado pessoal dentro de uma música que chama atenção primeiramente ao ponto de reais soldados. O soldado - caso não tenha ficado claro - seria ele, lutando, em um campo de batalha emocional, por outro soldado ferido, caído, que ele constrói um afeto mais do que esperava, e que por amor à sua farda, oculta tal sentimento, e se torna duro ao patamar que seu cargo exige, para não cair ao ponto de ter que pedir esmolas, de chegar ao fundo do poço


(esse vídeo traz uma interpretação muito boa da música)

Espero que tenham gostado, apesar de confusa, tentei colocar o ponto que sempre enxerguei dentro da música. Meu muito obrigado aos seguidores.

Eduardo Rezende, texto e análise. 



15 comentários to "Interpretação: Soldados "

  • Muito boa a interpretação. Mas, acho que você já tinha feito uma interpretação dessa. Não?

  • Agradeço, caro leitor!
    "Dessa" em qual sentido? rs.
    Muito obrigado, volte sempre!

  • Boa, interessante realçar esse lado, mas eu ainda prefiro a tese da Segunda Guerra Mundial...

  • Claro que é um importante tema, mas devemos nos lembrar que falamos de Renato Russo e a genialidade de colocar o branco sobre o preto. rs

  • kkkkk, dessa música, já não tinha uma análise dessa música antes?

  • Não... nunca havia analisado Soldados antes. Eu sigo a ordem alfabética e ela jamais foi analisada. rs. Mas de qualquer formas, espero que tenham gostado.

  • Suas interpretações são muito boas. No entanto, você parece ou procura ignorar (essa é a impressão que tenho) o fato de que Renato Russo era homossexual e que algumas de suas letras se referem a este aspecto de sua biogafia. "Soldados" é uma delas. Em entrevista Renato Russo observou que qualquer pessoa "com o mínimo de sensibilidade" perceberia do que se trata a canção. O cenário de batalha nada mais é que uma metáfora para os conflitos emocionais e pressões que os homossexuais sofrem. Aspectos semelhantes podem ser observados em músicas como "Daniel na Cova dos Leões", "Maurício", "Meninos e Meninas", "Vento no Litoral", "Leila", só para citar algumas.

  • o problema dos fãs mais jovens da Legião Urbana é que viajam nas letras, encontram uma complexidade que não existe, etc, etc. Renato Russo escrevia de forma simples, sem essa complexidade toda e provavelmente ele escreveu essa musica inspirado no amigo que tocava com ele no Aborto Elétrico que era Sul Africano e teve que ir pra guerra. Mais do mesmo tinha até citação de Velvet Underground, literalmente traduzida para a música

  • O Flavio lemos assumiu o baixo da banda depois que o Petrius saiu.

  • Concordo com o que o César citou... Esta letra se refere aos conflitos e dificuldades enfrentadas por Renato Quando ainda estava descobrindo sua sexualidade... Quem sabe essas meninas que ele cita na letra poderia ser até mesmo as mães que estavam longe enquanto os jovens se descobriram?

  • Perfeita interpretação.

    Fabio Calegari, discordo de vocë. Analisar Renato Russo no preto e branco eh sacrificar a memoria desse grande astro.

    Estamos falando de um genio, que morreu muito prematuramente. Nao tivemos tempo de saber mais sobre o que pensava, o que sabia, e o que nunca teve oportunidade de escrever. Mais uma vitima dessa doença que assola a nossa geraçao.

    A letra eh fantastica... os acordes de piano me fazem chorar sempre...

    Retratam um misterio, um enigma e porque nao o conflito de uma guerra/descobrimento sexual de Renato.

    Fantastico !

  • Eu acho que o soldado que narra é homossexual, e tinha medo de assumir amigo parceiro. Vejo várias evidências disso na letra. Não vão tão além. Abraços.

  • Perfeita interpretacao parabens

  • Esconde um lado que era conflitivo nele mas a letraa dá ensejo sim a muito boa interpretação do texto mais abrangente e que não quis ser restritiva a questão homossexual. As músicas de renato ou a musicalidade do que compôs o Legião, exposta de forma simples que dá pra qualquer um cantar, mesmo não entendendo e não sentindo o que diz a respeito das suas idiosincrasias. Como mestres da literatura e os feras da MPB Brasileira e mundial, Renato foi Gênio.

  • PRA MIM O NEY MATOGROSSO É UM HERÓI PRA MIM O KIKO ZAMBIANCHI É UM HERÓI PRA MIM O CAPITAL INICIAL SÃO HERÓIS DE GUERRA
    IA I LEGIÃO URBANA ESTAMOS INDO PARA UM JOGO DE ÚLTIMA GERAÇÃO RUMO AO DESEMARANHAMENTO DA ÁGUA A ÁGUA VAI DESAPARECER URBANA LEGIO OMNIA VINCIT RENATO RUSSO BRASÍLIA-DF
    ESSA GUERRA VAI SER UM JOGO DE INTELIGÊNCIA !

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