Uma das análises que não me deu trabalho, mas que claro, me exigiu muita atenção, afinal, cada erro nessa interpretação, que ao meu ver, é uma feita das melhores músicas da música brasileira, do Rock nacional e sem dúvida, um dos hinos da Legião Urbana.
Sendo a segunda música do "As Quatro Estações", Pais e Filhos é apresentada pela primeira vez no álbum de 1989, e reapresentada muitas outras vezes depois: Está presente em outros álbuns, tendo aparições no "Acústico MTV" (faixa 04), no "Como É Que Se Diz Eu Te Amo" (faixa 02), no "As Quatro Estações - ao vivo" (faixa 06), no famoso "Mais do Mesmo" (faixa 10) e no Perfil, lançado em 2011 sendo a faixa de número oito. É realmente, uma das mais conhecidas.
Segue-se a letra, com um breve comentário em sua introdução, e depois sua análise:

"Pais e filhos é especificamente sobre a nossa situação [dos componentes da Legião], pois nós três, agora, somos pais. E este disco é extremamente universal, não está ligado ao momento. Daqui a 20 anos, vamos poder ouvir Pais e Filhos" - Renato Russo.
Estátuas e cofres e paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender.

A primeira parte, sempre foi um grande ponto X pra mim.
Eu sempre duvidei que o primeiro verso era algo simbólico, poetizado para dar nexo, não total sentido, mas levando em conta do que se trata a música, imagino que o primeiro verso faz uma alusão à coisas que as pessoas que se vão deixam. Estátuas que são reformadas em túmulos e mausoléus, cofres que são trocados e descobertos seus segredos e paredes que são pintadas, mudam, mas o mistério continua: Ninguém sabe o que aconteceu. Sabe-se apenas que "ela" se jogou da janela do quinto andar, e nada é fácil de entender. Interessante analisar essa parte e imaginar como é a sociedade em que vivemos. Ninguém sabe o que aconteceu, ninguém sabe porque "ela" se jogou, nada é fácil de entender, mas todos ainda assim, à julgam, mesmo ela não estando aqui. 
Dorme agora,
é só o vento lá fora.
Quero colo! Vou fugir de casa!
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.

Essa parte, quem começa são os filhos (futuros pais).
Para entender o resto da música, e a troca de personagens, basta entender essa parte.
Os pais dizem ao filho quando pequeno para ele dormir, que é só o vento lá fora que faz o barulho que o perturba. É só o vento lá fora, que o faz não dormir. É lá fora que acontecem os problemas.
O menino (vou usar essa pessoa, mas pode ser outra pessoa, de outro sexo), diz que quer colo quando pequeno, e mais tarde, que vai fugir de casa.
O menino quando pequeno, pede pra dormir com seus pais, porque tem medo do que está lá fora, atormentando sua janela e perturbando seu sono, e mais tarde, que só voltará depois das três, o que nos faz montar uma cena de crescimento e imaginar esse processo: o filho querendo colo, e que está com medo, cresce e perde o sono: troca seu sono na cama dos pais (quando criança) pelas noites nas ruas, quando mais velho.
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito.
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há.

Essa parte, ao contrário da outra, quem começa são os pais (passados filhos).
Eles planejam o nome do filho, retratando como os pais, desde o planejamento de gravidez, ou desde a notícia do feto, já fazem ideias e planos para seus futuros filhos.
Aqui, nessa parte, aparece pela primeira vez o refrão da música:
É preciso amar, as pessoas como se o amanhã não existisse, porque se você parar pra pensar, e ver se há lógica, veremos que não há. Não "há" o que?
Não há sentido em crer que amanhã continuará tudo igual; não há sentido em pensar que o amanhã será  o mesmo que hoje; Não há sentido em pensar, que na verdade o amanhã virá. Hoje, é hoje. Não há amanhã. Não há chances e oportunidades para o futuro, existe apenas o agora. A vida, as opções, caminhos (do amor, como por exemplo) e do perdão, existem hoje. 
Me diz, por que que o céu é azul?
Explica a grande fúria do mundo
São meus filhos
Que tomam conta de mim.
Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.
Já morei em tanta casa
Que nem me lembro mais
Eu moro com os meus pais.

Essa parte, é interessante interpretar fazendo uma síntese geral.
Aqui, são diálogos e pensamentos de filhos para filhos, de pais para pais ou de pais para filhos (e vice e versa). Um filho pergunta porque o céu é azul e pede explicações sobre a fúria do mundo (começando com a crítica), e então um pai (ou mãe) diz que quem cuida dele são seus filhos, e então outro filho diz que mora com sua mãe, mas o seu pai vem o visitar, e então outro filho diz que mora na rua e não tem ninguém e mora em qualquer lugar.
É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há.
Sou uma gota d'água,
sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não te entendem,
Mas você não entende seus pais.

Novamente há o refrão e a mensagem de que se deve amar ao próximo como se o amanhã não existisse porque se parássemos pra pensar, na verdade, realmente, ele não existe.
Renato nos dá a mensagem de pequenez do homem. Somos uma gota d'água na nossa cidade, no nosso estado, país, continente, planeta, e até sistema. Não passamos nada mais, nada menos do que um grão de areia.
Após mostrar o quão pequenos somos, é dito um pensamento e a resposta para ele. Quantas vezes, nós adolescentes dizemos que não somos compreendidos e que nossos pais não nos entendem, mas na verdade, muitas vezes sabemos, em nosso íntimo, que na verdade somos nós quem não entendemos nada. Quantas vezes queremos sair, por exemplo, e brigamos com os pais por um "não"? Mas quantas vezes nos colocamos no lugar deles pra pensar o quanto conhecem e quanta experiência eles tem e se não nos deixam é porque sabem como é o mundo lá fora, onde há barulho que incomodam nossas noites quando pequenos. 
Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser,
Quando você crescer?

A mensagem que Renato nos passa, se completa nos últimos versos. "Você culpa seus pais por tudo", dando o ênfase da ignorância dos filhos e completando a ideia de que não entendemos os nossos pais.
Os nossos pais são crianças, em seu passado, como nós somos agora, no nosso presente. E em nosso futuro, seremos pais como eles, agora no presente.
Criticamos tanto os nossos pais, e acabamos como moral, a última frase da música; O que seremos quando crescermos? Ou seja: falamos agora de como errado é o pai, e quão certo é um filho. E quando os papeis se inverterem e o filho se tornar pai ou a filha se tornar mãe?


"Esta música é sobre suicídio. Ela é muito, muito séria. Me desgasta para caralh* quando a gente toca, e as pessoas não percebem. É sobre uma menina que tem problemas com os pais, ela se jogou da janela do quinto andar e não existe amanhã. Eu acho bacana, é uma música bonita, mas existe um clima em torno de algumas músicas da gente que me assusta. Quer dizer, cada pessoa interpreta à sua maneira, mas isso é uma música seríssima, é que nem Índios. Eu não Aguentaria ouvir duas vezes seguidas. Eu gostaria, então, que as pessoas prestassem atenção na letra e vissem que é uma coisa muito forte" (1994)

Análise, interpretação e pesquisa: Eduardo Rezende


Vindo do sexto álbum da Legião, "O Descobrimento do Brasil", "Os Barcos" é uma letra de esperança e de um término de uma relação.
Com uma letra muito simples e interessante de se analisar, a música nos passa uma moral interessante da obsessão pelo próximo e do sofrimento causado pela perda de alguém num relacionamento amoroso.
Segue-se a letra e a análise da faixa-sete, escrita por Dado e Renato:

Você diz que tudo terminou

Você não quer mais o meu querer
Estamos medindo forças desiguais
Qualquer um pode ver
Que só terminou pra você

A terceira pessoa (que pode ser tanto Ele quanto Ela, se tratando de Renato Russo), diz que tudo terminou, e não quer mais o "querer" que ele oferece.
Renato diz frases interessantes como "estar medindo forças desiguais", no sentido de "estamos tentando mostrar quem é mais forte", mas ele sabe que não é, porque não se conforma com esse fim, porque como ele mesmo diz, qualquer um pode ver, que só terminou pra terceira pessoa. Pra ele, esse amor ainda continua e ele sofre com esses sentimentos que ficaram.

São só palavras, texto, ensaio e cena
A cada ato enceno a diferença
Do que é amor ficou o seu retrato
A peça que interpreto,um improviso insensato
Essa saudade eu sei de cor
Sei o caminho dos barcos

Aqui, é a parte mais poética, dessa letra que é sobretudo uma grande genialidade retratada em música.
Renato compara a vida com um teatro, e sua falsidade de estar bem após esse fim de relacionamento, como um papel paralelo, uma vida alheia que um ator tem.
São palavras e textos as respostas automáticas de "estou bem" e "não sinto falta", e ensaios que fazem cenas quando ele deve dizer essas frases ou realmente fingir que está tudo bem e que não sente falta, a cada ato, ele encena a diferença, o que não é ele, o que não é do seu jeito normal - igual.
Do que é amor, ficou apenas um retrato, assim como seria dito por Adriana Calcanhoto em "Devolva-me". Renato finaliza essa parte dizendo que essa peça (vida) que ele atua (vive) é um improviso insensato e que a saudade que ele está tendo no momento, ele sabe de cor, de tanto que decorou esses momentos, de tanto que viveu essas lágrimas e vazio, pois ele sabe o caminho dos barcos, que ao meu ver, seria algo como "Sei o caminho que as coisas levam".

E há muito estou alheio e quem me entende
Recebe o resto exato e tão pequeno
É dor, se há, tentava, já não tento
E ao transformar em dor o que é vaidade
E ao ter amor, se este é só orgulho
Eu faço da mentira, liberdade
E de qualquer quintal, faço cidade
E insisto que é virtude o que é entulho
Baldio é o meu terreno e meu alarde
Eu vejo você se apaixonando outra vez
Eu fico com a saudade e você com outro alguém

Há muito ele se sente alheio de tudo, e após algumas ideias ditas ali, ele diz as seguintes frases: " eu faço da mentira, liberdade" ele se sente livre do outro, quando diz coisas falsas sobre si, complementando que "de qualquer quintal faz cidades" que em outras palavras, ao meu ver, seria como dizer que de qualquer canto, ele faz algo maior, consegue fazer coisas grandes de coisas pequenas, talvez comparando isso aos seus problemas, à suas emoções e aos sentimentos que está vivendo em solidão, silêncio e vazio. Renato diz ainda que insiste que é VIRTUDE o que é ENTULHO, entrando essa frase também, como algo simbólico e poético: Ele insiste em dizer que esse amor perdido seria virtude sabendo que isso é entulho. Ele insiste em crer que é bom e construtivo, algo que já foi usado e hoje é lixo. Renato finaliza, ainda dizendo que vê essa terceira pessoa se apaixonando outra vez, que ele fica com a saudade e ela, com outro alguém.
Que enquanto ele sofre por ela (terceira pessoa), ela está com outra pessoa, esquecendo-se dele.

E você diz que tudo terminou
Mas qualquer um pode ver
Só terminou pra você
Só terminou pra você

Finaliza ainda, demonstrando e complementando palavras anteriores.

A terceira pessoa diz que tudo terminou, aos quatro ventos foi falado e todos sabem que tudo terminou, mas qualquer um pode notar, que só terminou apenas pra um dos lados. Que o outro lado está em desequilíbrio e total solidão. 



Análise e Interpretação: Eduardo Rezende



 Escrita por Dado Villa-Lobos e Renato Russo, "Os Anjos" vem como a nona faixa de "O Descobrimento do Brasil", e nos passa uma imagem bem simples e poética sobre a sociedade e uma crítica exposta e bem feita para a maldade, crueldade, falsidade e tantos outros problemas que são levados ironicamente na música.

Acho muito curioso, o modo com que Renato coloca a imagem dos anjos numa forma tão crítica de letra, como a inocência e o lado puro desses seres, pudessem ser comparados, ao lado desumano e podre dos homens.


Hoje não dá
Hoje não dá
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar

"Hoje não dá, o tédio me corrói e o conformismo me acolhe"



Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá

"Hoje não dá, a maldade está em seu ponto máximo e não me sinto encorajado"

Sempre levei essa parte no sentido de que Ele não queria fazer algo, não estava afim, pelos motivos que virão abaixo. Sempre imagino, que por motivos de "desumanidade", ele não estivesse com vontade de algo, de se levantar talvez, e levando por esse lado, conseguimos evoluir a análise a partir desse princípio.


Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma
Untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
Dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça antes de levar ao forno temperar
Com essência de espirito de porco
Duas xícaras de indiferença
e um tablete e meio de preguiça

Renato, no show da "Platéia Livre" (Rio de Janeiro - primeira parte), interrompe essa parte da música após trocar a ordem e dizer "dez colheres cheias de burrice", pulando quatro dos versos  contidos nessa parte, e pede um "stop" pra banda e pede à platéia para que o ajude. Pelas palavras dele, tiramos conclusões da moral da música.
"Como é que é? Como é que se faz uma receita pra intolerância e injustiça? Vamos lá..." e ele refaz os versos dessa parte com a platéia, juntando as seguintes palavras: "eles sabem rapazes!", como se quisesse provar que todos ali, sabem o segredo de se montar um governo, um sistema e um meio social errôneo.

Hoje não dá
Hoje não dá
Está um dia tão bonito lá fora
E eu quero brincar

"Hoje não dá, está um dia bonito e calmo, e quero me sentir livre!"

Mas hoje não dá
Hoje não dá
Vou consertar a minha asa quebrada
E descansar

"Hoje não dá, vou me arrumar e por qualidades em meus defeitos, e tirar defeitos de minhas qualidades"

Gostaria de não saber destes crimes atrozes
É todo dia agora e o que vamos fazer?
Quero voar pra bem longe mas hoje não dá
Não sei o que pensar e nem o que dizer
Só nos sobrou do amor
A falta que ficou

Essa parte resume toda a música, e principalmente a segunda parte.
Renato, gostaria de não saber desses crimes horríveis e hediondos. É todo o dia! Em todas as noites, manhãs e tardes, tirando os plantões durante o dia, nos jogando informações de grandes tragédias: São mortes, são assaltos, são grandes catástrofes, sequestros e outras bizarrices que hoje são normais, o que vamos fazer? Nada, vamos absorver infelizmente. Quem dera pudéssemos voar pra bem longe, pra algum lugar onde tudo fosse decente: as pessoas e seus atos. Mas hoje não dá, não sabemos o que pensar, e nem o que dizer, estamos tão preparados pra ouvir problemas, mas despreparados pra resolver soluções. E disso tudo, só nos sobra do amor, a falta que ele nos faz. Só nos sobra da humanidade, compaixão e esperança, o leve rastro e a ideia de que eles existiram. 




Análise e escrita: Eduardo Rezende