Nos anos oitenta, a efervescência de músicas agitadas e de letras mais simples tomaram conta junto às de letras mais sofisticadas e recobertas de simbolismos. Críticas ou despojadas, as músicas ganhavam sempre espaço em rodas de violão, e até hoje, toda a roda de violão que se preza - que toca alguma música boa - ainda relembra os passos de Capital Inicial, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii, Cazuza e Barão Vermelho, Ira, ou outras bandas.
Eis também que surge Natália (música da Legião Urbana), Ana (de Refrão de Bolero - dos Engenheiros), Anna Julia (Los Hermanos), Bete (Balanço - do Cazuza) e com Capital Inicial, surge a menina dos olhos. A senhora das rodinhas de violão, a inspiradora e rebelde Natasha. Cada banda, em suas épocas, com suas meninas. Cada menina, uma personalidade diferente...


E falar de personalidade, ainda mais de Natasha, é covardia! Mais de fases que sua amiga Anna Julia. Apesar de xará (muito complicada mas nada perfeita), Ana Paula, com suas apenas dezessete primaveras de vida, foge de casa, deixando pra trás tudo. Uma vida; seus estudos, sua casa, sua futura carreira ou qualquer indício de vida responsável... Deixa pra trás seus pais, seu namorado, fugindo às sete da manhã em um dia errado (poderia ter esperado mais um pouco, furtado alguma grana, pra comprar um basê ou uma garrafa e fazer folia.
Ana Paula, que se torna Natasha quando cai nas ruas, dá "passos sem pensar". Não quer futuro e não requer responsabilidade. Afugenta indícios de laços e procura soltar suas asas e berrar "liberdade, liberdade!". Vive uma dupla personalidade, a educada Ana Paula, agora já dá passos diferentes, e se faz de outra, em outros dias, em outros lugares.
Natasha deixa rastros de garrafas, cigarros e badernas, acompanhada ou sozinha, sem pensar no futuro ou amanhã, rouba carros apenas por diversão. Seu ego infla com o caos, e com ele, aumenta o seu salto, e modifica seu estilo. 
Seus dias são tão incertos, que pra ela, viver cada segundo, é viver intensamente. Não se aborrece por futilidades, deixou uma vida pra trás! A vida em si já é fútil demais... Natasha só quer se divertir, e faz da sua vida uma diversão intensa... "O mundo vai acabar, e ela só quer dançar", sua vida é feita disso. De passos sincronizados, de música alta no fone de ouvido e de intensos passos... Intensos passos contra a vida, o regrado e o moralmente adequado. E isso é obvio, "pneus de carros cantam".
Natasha é mais do que outra personalidade. Ana Paula tem mais vidas, em todos os sentidos. Tem outras personalidades, e tal como, outras identidades - com carteiras falsas e idade adulterada. Ana Paula tem sede de libido, e é gatuna. O vento sopra enquanto ela lhe dá o golpe, e "desaparece antes que alguém acorde".
Talvez alguém encontre Ana Paula por aí. Talvez não a reconheça por Natasha à ter encoberto.
Ana Paula era uma moça de família, com um futuro promissor, pais amáveis e namorado piedoso. Ela abandonou os estudos, a presente e futura carreira, o seu par amoroso, religião e outras incertezas. Se dedicou ao hoje, ao cabelo verde, à tatuagem no pescoço, se dedicou ao salto quinze, à saia de borracha. Se dedicou à metamorfose Natasha, o mesmo rosto, com marcas diferentes - das drogas ou arranhões de brigas - o mesmo corpo, agora feito pro pecado e não mais abrigo de parte de algum deus.
Eis Natasha, a luta contra o tempo, o ilegal, o proibido. A jovem de vida bela, o paraíso resumido ao comprimido e mentalidade ou incertezas tão pequenas quanto. 

Eduardo Rezende, análise e interpretação 


6 comentários to "Natasha (Capital Inicial)"

  • Olá Eduardo. Tem alguns dias q ando bebendo das palavras de seu blog. Muito bom mesmo! Gostaria de pedir para analisar algumas músicas do clube da esquina. Que vem aqui da minha terra. Vc faria isso?

  • Olá Mariana!
    Muito obrigado por essas palavras e agradeço pelo interesse.
    Não conheço a banda, mas assim que acabar as que estão na lista de postagem, quem sabe? Seria interessante mostrar outras bandas... Obrigado, volte sempre!

  • Poxa, Dudu, quanto estilo! Me senti lendo uma coluna de jornal! Você tem muito jeito mesmo...
    Mas deixando o estilo do texto e focando no texto em si, é engraçado isso das meninas nas músicas. Tu fostes listando ai e eu comecei a lembrar... Tem a Camila (que é amiguinha da Clarisse), do Nenhum de Nós. Tem a menina do Barão tbm, que não tem nome, mas é puro êxtase.
    O que eu sempre acho dessas músicas é que são importantes como retrato da juventude, fotografia da sociedade mesmo. Essas meninas são quase como uma Mona Lisa dos anos 80.
    Parabéns pelo belo texto!

  • A minha dúvida é se a Natasha era ladrona de carros ou prostituta.

  • Sempre penso nela como prostituta...

  • Olaaa.. Caraca Eduardo, sensacional. A sua viagem, conduz a nossa. A letra de Natasha é uma história totalmente real e verdadeira. Encontramos personalidades assim em qualquer lugar, região, classe. E sabe, algumas Natasha são controladas, uq acho algo bacana, (falei controlada, não oprimida). Mas durante os anos iniciais de moda juventude isso eh ateh instigado mesmo, quebra de tudo, barreiras, paradigmas, nossos limites, acredito que isso nós traga uma certeza maior duq e de quem somos e que traz reflexos pro resto de nossa vida, nossa personalidade solidificada, apesar de sermos "metamorfoses ambulantes" .... Enfim parando por aqui, a empolgação chegou rsrs. Velho, parabéns sensacional mesmo. Não sei qdo foi o POST mas espero que muito mais gente consiga te ler. A e soh pra comentar... A música TB Natasha eh atemporal e não eh desse mundo mesmo... Assim como outras da legião, ela nos conduz à nossa própria vida. Mente, coração e alma... "Pneus de carros cantam..."

    Viva o rock
    Viva o capital
    Viva a nossa liberdade

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