Em pleno regime militar, por volta dos 1960, a sociedade brasileira se deparou com movimentos, controvérsias sociais e morais e novos costumes. Eis que surge os primeiros movimentos que dariam origem ao Pop, ao Rock - que levaria ao punk e depois novamente ao rock, onde surgiriam bandas como Legião Urbana, Capital Inicial, Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso (e que mais tarde, levariam à outras bandas por influência).
Esses movimentos, muitos até comportamentais, estilizados e inovadores, após causarem espanto, causaram mudanças. O Tropicalismo, surgindo por raízes da MPB e da própria música Pop, pegou influências da bossa nova e do jazz, transportando instrumentos e ritmos à suas letras e músicas evolucionistas e progressistas em um período negro da política e da história.
Com a moral de revolucionar, eis que surgem bandas e cantores... "Os Mutantes", do Rock Psicodélico, a variante do Rock nos anos 60, que trazia um estilo hippie com um ritmo agitado das guitarras, dos gritos e suspiros, das risadas e gargalhadas dentro das músicas. "Os Mutantes" inovava suas técnicas, o rock ia crescendo, e a sociedade mudando com a música e diretamente, com a cultura da época.


"Panis et Circensis" entrou no disco que leva o mesmo nome lançado pelo movimento Tropicália. Escrita por Gil e Caetano Veloso, o ar da voz de Rita Lee - uma Rita com seus quase vinte anos, tocando instrumentos diferentes, além de flautas, banjo e percussão, escrevendo letras e dando um ar mais leve às músicas.
Uma música muito simples, de apenas quatro estrofes, sendo deles, três contendo uma parte interpretativa e outra, menos profunda (mas não menos importante), contendo o refrão.
À começar pelo período, a Ditadura Militar já estava abrigada no Brasil e enraizando suas primeiras medidas. Nada ainda tão sério, surge a música como a distração, e como alerta pra distração do momento.
"Panis et Circensis" - "Pão e Circo" (em latim) - é um recado e um desabafo...
Quando a ouvia, sempre imaginava a comunicação via TV e de repente, tudo fez sentido. O pré-conceito de imaginar que a informação na maioria das vezes vem por imagens acabou me abandonando e vi então, uma mesa, cadeiras, pessoas e pratos; convidados jantando, e um rádio.

Quando uma Rita Lee diz que quis cantar uma canção iluminada de sol - se referindo à uma canção criativa - e que soltou os panos sobre os mastros no ar - talvez uma referência ao patriotismo - e os tigres e os leões nos quintais - defesa, talvez? - e que mesmo assim, as pessoas não lhe deram importância, quis se referir que todos são ocupados demais com os nasceres e morreres sociais. Tanto às novelas de rádio quanto também aos jornais. Todos estão ocupados demais em nasceres e morreres para lhe dar importância.
Em um momento vestindo a carapuça do romantismo e as máscaras do simbolismo. Ao dizer que mandou fazer um punhal de puro aço luminoso para matar seu amor às cinco horas na avenida central, têm-se a impressão de que mesmo fazendo um preparo, um assassinato perfeito, dando trabalho e de qualquer maneira tentar desviar os olhos ou ouvidos de outras coisas, não conseguem... As pessoas na sala de jantar são ocupadas demais em ouvir e ver suas notícias de pessoas que nascem e morrem o tempo todo.
Em um último recurso, já não conseguindo mais gravar músicas para chamar atenção, nem fazer atos bárbaros para chocar, resolve-se plantar folhas de sonho no jardim do solar... Porque as folhas procuram pelo sol (de esperança) e as raízes sabem procurar (os problemas e soluções), mas as pessoas da sala jantar... Essas pessoas da sala jantar! Não fazem nada porque são as pessoas da sala de jantar, que são somente ocupadas em nascer e morrer... Nos nasceres e morreres que a mídia informa (seja ela, como imagino, da rádio - em questão - ou TV). As pessoas estão voltadas ao que os terceiros querem que elas vejam... E elas veem, aderindo ao hábito da velha política mundana, imunda e nada humana, política do Panis et Circenses. De todos os modos, de se alertar, de se dizer, de se proclamar a rebeldia e se divulgar a lei dos que não querem leis, ninguém ouve. Todos estão preocupados demais com as notícias vagas. Todos na sala de jantar estão preocupados demais em não estar preocupados.

Análise e texto de Eduardo Rezende


Agora que já não preciso me prender à análises tão diretas, farei de um modo diferente as interpretações que aqui quero exibir. Serão sempre modificados os autores, cantores e bandas e as músicas irão variar bastante e claro, serão colocadas de acordo com a disponibilidade do meu tempo (que neste mês de fevereiro acabou se tornando escasso e corrido!).
Lembro quando apresentei um trabalho na aula de arte em que deveríamos pegar um poema e fazer uma apresentação. Fugi! Rebelde e imaturo! Escolhi "Roda Viva", de Chico Buarque de Holanda para apresentar prum grupo de mais de trinta pessoas acompanhado de outras duas pessoas.

A escolha por essa obra foi da mais sincera e repugnante adoção para fugir dos parâmetros que outros poemas seriam estruturados. Escolhi Roda Viva pela história, pela cultura. Escolhi Roda Viva por sempre querer ter batalhado contra ela! 

Roda Viva antes de mais nada é um modo bonito para mascarar o negativo. O negativo que destrói, o negativo que acaba com tudo por onde passa. A roda de gente viva que por onde passa, desemudece as pessoas (e o pior, em plena Ditadura Militar!). 


Chico inicia sua música dizendo que tem dias que ele (de uma forma em "a gente", como parte de um todo), se sente como quem partiu ou morreu, por justamente estar estancado - parado, deixar de correr - ou então pelo mundo que cresceu. Ele deixou de se sentir vivo muitas vezes, um sentimento de frieza o bate por ver que a sociedade está estancada e que o mundo cresceu - de uma forma tanto positiva quanto negativa.
A "roda-viva" entra na história quando dizem que querem ter seu próprio destino para mandar e voz ativa, mas eis que entra a roda-viva e leva todos os sentimentos de liberdade pra lá... "Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peão, o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração".
Os versos da música, remetem ao ato de rodar. Por ser tão musical e bem estruturado, dá impressão de movimento, e portanto, de uma roda. Claro que a roda da música, se refere ao grupo de pessoas, um grupo vivo, uma roda viva.
Entre resistir, ir contra a corrente, cultivar roseiras, a roda viva está presente e estraga tudo. Estraga por saber que há quem resiste ao sistema, estraga por saber que há quem queira ir contra isso tudo, que cultiva roseiras, que cultiva ideias!
A roda da saia mulata não quer mais rodar, a roda de samba já não existe e não há pra quem fazer serenata, porque todos estão mudos, todos sumiram, todos se esconderam da roda-viva...
... Se esconderam porque tomam a viola às mãos tomando a iniciativa de cantar e bradar aos quatro ventos as maldades do Sistema, a opressão e por uma minoria que luta por seus direitos... Mas eis que chega a roda viva e carrega a viola pra lá.
O samba que cria vozes para ouvintes curiosos e fartos de tortura e opressão... A viola que divulga ideias para os revolucionários... A roseira da teoria, e a rosa colhida pela prática... O exercício contra a opressão, três formas simbólicas, que veem de uma ilusão passageira de que tudo poderá mudar, e que de tão leve, a brisa levou... No peito a saudade cativa o desejo de mudança, e faz força pro tempo parar (com torturas, com manchetes, com alienação), mas eis que chega a roda-viva e muda tudo novamente, levando a saudade pra lá, e deixando o conformismo para uma sociedade brasileira na Ditadura Militar.

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Roda Viva foi escrita por Chico Buarque para a apresentação da peça "Roda Viva", que após as primeiras apresentações, causou-se polêmica e após feridos, bang-bang e polêmicas, teve a letra sob o carimbo vermelho de CENSURADO. 

Análise e texto de Eduardo Rezende