Nem tão conhecida, muito interessante, as vezes descartadas e que não será excluída ou deixada de lado, "Natália" é a música de abertura d'A Tempestade.

Com uma letra crítica e que primeiramente, quando se vê o título, causa até um certo choque, "Natália" mantém o padrão dos outros discos iniciais, de mostrar a crítica bem exposta sem grande aprofundamento. É uma letra inteligente, interessante e com ritmo verdadeiro de Rock In Roll e por isso, tão admirada, é a letra que hoje será analisada.
Segue-se a letra a análise de comentário:


Vamos falar de pesticida
E de tragédias radioativas
De doenças incuráveis
Vamos falar de sua vida
Preste atenção ao que eles dizem
Ter esperança é hipocrisia
A felicidade é uma mentira
E a mentira é salvação
Beba desse sangue imundo
E você conseguirá dinheiro
E quando o circo pega fogo
Somos os animais na jaula
Mas você só quer algodão doce
Não confunda ética com éter
Quando penso em você eu tenho febre

A letra é bem exposta, e não requer tanto aprofundamento, mas acho interessante analisar parte por parte...
Renato começa ironicamente falando dos pesticidas, das tragédias e afins... e então diz de falar sobre a vida dela. Ela quem? Natália. Quem seria Natália em uma letra crítica?
Clarisse é exposta. A música Clarisse, fala da vida da menina e coloca críticas na história... Aqui não. É apenas a critica ante à Natália. Natália seria a representação de uma juventude.
Natália representa uma juventude. Uma juventude que se fala e comenta das tragédias. Uma juventude que presta atenção nos que mandam e sabem que ter esperança é hipocrisia, e que a felicidade é uma mentira, pois ninguém sabe ser feliz em uma juventude, como ali mesmo é dito, sem futuro. A mentira é a salvação desses erros. Por erros, consegue-se dinheiro. E quando tudo pega fogo, quando todos os problemas acontecem, é essa a juventude, que seriam os animais na jaula: indefesos, presos e sem socorro. Acho interessante pensar que não é apenas no caso do circo pegar fogo que eles seriam animais... mas até quando o circo é o espetáculo dos palhaços do governo, quando ainda assim, essa juventude é considerada como a de animais.

Mas quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você
Quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você

Quem sabe, um dia, ainda possamos escrever uma canção positiva para uma juventude assim? perdida, sem futuro? Quem sabe um dia, Natália, a representante dessa juventude, não seja a inspiração de músicas de gritos de guerra e apelo ao consciente.

É complicado estar só
Quem está sozinho que o diga
Quando a tristeza é sempre o ponto de partida
Quando tudo é solidão
É preciso acreditar num novo dia
Na nossa grande geração perdida
Nos meninos e meninas
Nos trevos de quatro folhas
A escuridão ainda é pior que essa luz cinza

Essa parte é meio própria eu acredito, mas Renato mantém o foco da música quando volta às palavras de que é preciso acreditar num novo dia, acreditar que um novo dia virá, e no crer dessa esperança, pensar na geração perdida que viverá esse grande que renascerá.
É preciso acreditar nesse novo dia que virá. Acreditar que essa geração de meninos e meninas conseguirão mudar algo - o que causa certo receio... "será que vão conseguir?" - é preciso contar com a sorte... Porque nesse caminho deles... esse caminho de mudança poderá levar à escuridão... que eles estão tão próximos, tão afundados.

Mas estamos vivos ainda
E quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você
Quem sabe um dia eu escrevo
Uma canção pra você

Eles ainda estão vivos. Ainda é preciso acreditar em todos os fatos, dados, modos e meios - e medos - e claro, que por ainda estarem vivos, ainda sentem todos os abalos desse meio. E confiam nessa geração... Nessa geração que não é a "Coca-Cola", mas é a geração de "Meninos e Meninas" que irá para mudar algo.
Acho interessante citar, como Renato não deixou passar alguns fatos... Para ter a plena certeza do que essa música poderia significar, por ser tão simples e simbólica, procurei e encontrei algo que me trouxe êxito e contentamento: "Natália: Latim, Natalis, dia natalício. Só consegue amadurecer depois de muito lutar para chegar a um equilíbrio entre a razão e o coração. Por isso muitas vezes é vista como uma pessoa inconstante. É fiel e exige que seja tratada com deferência". Talvez a arma dessa geração seja isso... a luta e o amadurecimento para uma luta de equilíbrio entre a razão e o sentimento.


Análise e texto: Eduardo Rezende