"...Quando o que temos é um Catálogo de Erros... Esse é o Livro das flores. Esse é o Livro do Destino. Esse é o Livro de nossos dias..." - Que se abram as cortinas, que se virem as páginas: Sejam todos bem vindos!
Escrita por Dado Villa-Lobos e Renato Russo, "Os Anjos" vem como a nona faixa de "O Descobrimento do Brasil", e nos passa uma imagem bem simples e poética sobre a sociedade e uma crítica exposta e bem feita para a maldade, crueldade, falsidade e tantos outros problemas que são levados ironicamente na música.
Acho muito curioso, o modo com que Renato coloca a imagem dos anjos numa forma tão crítica de letra, como a inocência e o lado puro desses seres, pudessem ser comparados, ao lado desumano e podre dos homens.
Hoje não dá
Hoje não dá
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar
"Hoje não dá, o tédio me corrói e o conformismo me acolhe"
Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá
"Hoje não dá, a maldade está em seu ponto máximo e não me sinto encorajado"
Sempre levei essa parte no sentido de que Ele não queria fazer algo, não estava afim, pelos motivos que virão abaixo. Sempre imagino, que por motivos de "desumanidade", ele não estivesse com vontade de algo, de se levantar talvez, e levando por esse lado, conseguimos evoluir a análise a partir desse princípio.
Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma
Untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
Dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça antes de levar ao forno temperar
Com essência de espirito de porco
Duas xícaras de indiferença
e um tablete e meio de preguiça
Renato, no show da "Platéia Livre" (Rio de Janeiro - primeira parte), interrompe essa parte da música após trocar a ordem e dizer "dez colheres cheias de burrice", pulando quatro dos versos contidos nessa parte, e pede um "stop" pra banda e pede à platéia para que o ajude. Pelas palavras dele, tiramos conclusões da moral da música.
"Como é que é? Como é que se faz uma receita pra intolerância e injustiça? Vamos lá..." e ele refaz os versos dessa parte com a platéia, juntando as seguintes palavras: "eles sabem rapazes!", como se quisesse provar que todos ali, sabem o segredo de se montar um governo, um sistema e um meio social errôneo.
Hoje não dá
Hoje não dá
Está um dia tão bonito lá fora
E eu quero brincar
"Hoje não dá, está um dia bonito e calmo, e quero me sentir livre!"
Mas hoje não dá
Hoje não dá
Vou consertar a minha asa quebrada
E descansar
"Hoje não dá, vou me arrumar e por qualidades em meus defeitos, e tirar defeitos de minhas qualidades"
Gostaria de não saber destes crimes atrozes
É todo dia agora e o que vamos fazer?
Quero voar pra bem longe mas hoje não dá
Não sei o que pensar e nem o que dizer
Só nos sobrou do amor
A falta que ficou
Essa parte resume toda a música, e principalmente a segunda parte.
Renato, gostaria de não saber desses crimes horríveis e hediondos. É todo o dia! Em todas as noites, manhãs e tardes, tirando os plantões durante o dia, nos jogando informações de grandes tragédias: São mortes, são assaltos, são grandes catástrofes, sequestros e outras bizarrices que hoje são normais, o que vamos fazer? Nada, vamos absorver infelizmente. Quem dera pudéssemos voar pra bem longe, pra algum lugar onde tudo fosse decente: as pessoas e seus atos. Mas hoje não dá, não sabemos o que pensar, e nem o que dizer, estamos tão preparados pra ouvir problemas, mas despreparados pra resolver soluções. E disso tudo, só nos sobra do amor, a falta que ele nos faz. Só nos sobra da humanidade, compaixão e esperança, o leve rastro e a ideia de que eles existiram.
Análise e escrita: Eduardo Rezende
domingo, 12 de agosto de 2012
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