Quando comecei o blog, esperava por esse momento.
O momento de analisar uma das mais críticas músicas da Legião; uma das minhas músicas preferidas dentre as críticas e uma música que deveria ser considerada o "hino nacional" para e por todos nós brasileiros.
"Perfeição" é o retrato, literalmente perfeito, de uma nação com características tão negativas como a pátria amada, idolatrada, Brasil. É a música que é apresentada em "O Descobrimento do Brasil", sendo ela, a última música à contar com videoclipe, sendo ele, considerado o mais bem feito da história da banda que influenciou uma onde pessoas; uma verdadeira legião de mentes críticas.
Perfeição se abre com um ponto direto e crítico, que não merece nada profundo, apenas um reforço em seus contornos. Perfeição se abre como uma cortina, para o espetáculo de tragédias verde-amarelo, abrangendo a situação do Brasil e de todo o mundo. Os problemas são universais.

Vamos celebrar

A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...

Vamos celebrar

A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...

Dividi a música em partes, contando cada uma com uma dupla de estrofes.
A primeira parte, assim como toda a música, apresenta de forma irônica o contexto de "satisfação" com os malefícios sociais. Renato, em um campo de flores, convida cidadãos brasileiros à se levantarem e celebrar a estupidez da espécie, a estupidez das nações, celebrar a estupidez de um país sujo e a corja de cidadãos mascarados. Pede para celebrarmos a estupidez de um povo - como um todo - a polícia incapaz e uma televisão alienadora, celebrar a incapacidade do governo, e o estado que não é nação. O Estado que não contribui para seus habitantes.

Celebrar a juventude sem escolas

As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades

Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...

Renato, agora num cenário um pouco mais monótono e meno
s agitado, levanta a voz e pede por celebrações para uma juventude sem escolas, pela vida - ou falta dela - de crianças, e da desunião de uns com outros embaixo de uma árvore. 
Pede para celebrarmos a personificação do amor, a personificação da morte, a personificação de fertilidade, e o deus da morte, Hades.
Pede para celebrarmos "nossa tristeza", celebrar a "nossa" vaidade.


Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...

Vamos celebrar nossa justiça

A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E sequestros...

Renato, mais uma vez, de forma irônica, mostra a estupidez dessa nação quando diz "comemorar como idiotas a cada fevereiro e feriado", se referindo ao pão-e-circo que temos todos os fevereiros com a presença do Carnaval, e os problemas que ele acarreta, como os mortos nas estradas e os mortos por falta de hospitais - abrindo duas críticas: a primeira pela superlotação, de tantos acidentes ocorrendo, e a segunda, como é dito, por não haver muitos hospitais. Ironiza o termo "justiça", nos dando a referência dessa justiça injusta ("Baader-Meinhof Blues"), fala da ganância e a difamação. Celebrar os preconceitos, o voto dos analfabetos e outros problemas expostos ironicamente e bem colocados diretamente. 

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...

Vamos celebrar a fome

Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...


Vamos celebrar "nosso castelo de cartar marcadas": Celebrar os problemas e as respostas que já são óbvios e armados; o trabalho escravo, o "pequeno" e fechado universo próprio do meio social. 
Interessante citar, que o termo "hipocrisia" quando cantado no clipe, é seguido do ato de Renato baixar os olhos para o livro que carrega consigo, provavelmente uma bíblia, dando a ideia de hipocrisia religiosa, a pior espécie da hipocrisia: Onde o amor deveria sera prioridade, a disputa por fiéis e por "quem está certo ou errado" se torna o alvo do primeiro patamar. "Festa do torcida campeã", referindo-se ao futebol e ao pão-e-circo de uma mídia que robotiza pessoas e as cega diante de tantos problemas.
Ainda de forma irônica, celebrar a fome, o "não ter à quem ouvir" e "não se ter a quem amar", referindo-se à falsidade das pessoas e não necessariamente a presença (ou a falta dela) dessas pessoas em seu meio.
Vamos alimentar o que é maldade, "colocar lenha na fogueira"; vamos machucar o coração, "maltratar, pisar e esfarrapar o sentimento alheio".

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...

"Vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos":
Vamos celebrar nossa pátria, desse verde que simboliza as matas, que foram devastadas, cortadas de ponta à ponta, desde 1500, fazendo a madeira ser exportada do solo brasileiro; celebrar esse amarelo, que simboliza as riquezas naturais e o ouro, que foram extraídos em outrora para abastecer um comércio externo, fazendo os reais brasileiros, nativos da terra de "solo fértil", ficar sem o que era seu por direito; celebrar esse azul que simboliza a paz que jamais tivemos e a pureza do seu céu, que antes era limpo, e hoje é cinza, poluído cada vez mais ("Fábrica").
Celebrar tudo o que é gratuito e feio, que se tornou "normal" perante todos nós, desde às sete da manhã até as dez da noite, onde a moral e os reais sentidos foram invertidos e convertidos em seus opostos.
Vamos cantar juntos um choro de apelo, que é o hino nacional. Um só grito que pede por mudanças - mais do que urgentes, nos quatro cantos do Brasil.



Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom-senso
Nosso descaso por educação

Vamos celebrar o horror de tudo isso
Com festa
Com velório e Caixão
Está tudo morto, enterrado agora
Já que também devemos celebrar
A estupidez de quem cantou essa canção

Vamos celebrar todas as ironias contidas na música, com festa, com velório e caixão, afinal, toda a moral e os reais valores humanos, estão mortos e enterrados pela presença do comodismo e o "não querer mudar", que as novas gerações trouxeram enraizadas dentro de si.
Vamos celebrar, já que a vida é uma ironia, uma inversão de valores, e uma confusão. Uma catástrofe. Vamos celebrar a estupidez, de quem acredita que a ironia contida na música, é a verdadeira "moral" que se deve ensinar. Vamos, já que também podemos, celebrar a estupidez de quem canta essa canção, não levando ao lado irônico, mas ao lado firme, de que as crianças devem ficar sem escolas e que deve-se continuar com a falta de hospitais. O horror de quem veste a camisa para os horrores da humanidade.

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão...
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é perfeição!...


Renato convida uma terceira pessoa (eu, ou você, ou ele) ou terceiras pessoas (nós, revolucionadores, críticos e pessoas que se cansaram dessa mesmice), à irem com ele.
Diz que seu coração está com pressa (a pressa da mudança, a pressa de coisas novas), que quando a esperança está ausente, só a verdade o liberta, ou seja: quando tudo está perdido, só os fatos o deixam livre (Quando tudo está perdido, ele enxerga uma luz - "A Via Láctea").
Renato convida para um lugar onde o amor tem sempre a porta aberta, e diz que o futuro recomeça, comparando-o com a chegada da primavera (a estação de "renovação" e "mudanças", onde entra novamente Persephone). O futuro recomeça, e chama para o que vier, e o que vier será perfeição.
O fruto dos erros, são mentes desconfiadas.
Mentes desconfiadas criam revoluções.
Revoluções criam mudanças.
Mudanças causam ajustes.
Ajustes causam perfeições.

No clipe, e até num contexto de interpretações de fatos, imagino que as flores, simbolizem a pureza, e que nessa sociedade utópica onde não haveria "maldade e ilusão", e onde as comemorações seriam pelas verdadeiras virtudes e atos humanos (não as ironias contidas na música, mas o seus opostos), as pessoas simbolizassem as flores, que no fim não são despedaçadas, por justamente estarem puras. As pétalas, que são jogadas ao longo do clipe, são simbolizações de "pessoas partidas", uma vez que pétalas constituem flores, e se flores são pessoas, pétalas, seriam partes delas. Um jardim, seria um coletivo, essa sociedade utópica, esse lugar, "perfeito", que Renato menciona no fim da música, além claro, das flores serem símbolos da primavera, e a primavera, o resultado da mudança.
No fim do clipe, nos últimos segundos, Renato aparece pela segunda vez (ambas brevemente), modificando uma espécie de jogo sobre uma mesa com globos, como se fossem estratégias ou algo parecido com uma cara satisfeita.
Perfeição é um hino para uma geração que não deve se calar.
É a obrigação de jamais ser seguida, mas sempre ser criticada.
É o fato de nos tornarmos menos alheios, e mais presentes socialmente, que nos faz sermos menos alienados e mais críticos. 


- Eduardo Rezende: análise, interpretação e texto crítico.