"...Quando o que temos é um Catálogo de Erros... Esse é o Livro das flores. Esse é o Livro do Destino. Esse é o Livro de nossos dias..." - Que se abram as cortinas, que se virem as páginas: Sejam todos bem vindos!
Nos anos oitenta, a efervescência de músicas agitadas e de letras mais simples tomaram conta junto às de letras mais sofisticadas e recobertas de simbolismos. Críticas ou despojadas, as músicas ganhavam sempre espaço em rodas de violão, e até hoje, toda a roda de violão que se preza - que toca alguma música boa - ainda relembra os passos de Capital Inicial, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii, Cazuza e Barão Vermelho, Ira, ou outras bandas.
Eis também que surge Natália (música da Legião Urbana), Ana (de Refrão de Bolero - dos Engenheiros), Anna Julia (Los Hermanos), Bete (Balanço - do Cazuza) e com Capital Inicial, surge a menina dos olhos. A senhora das rodinhas de violão, a inspiradora e rebelde Natasha. Cada banda, em suas épocas, com suas meninas. Cada menina, uma personalidade diferente...
Ana Paula, que se torna Natasha quando cai nas ruas, dá "passos sem pensar". Não quer futuro e não requer responsabilidade. Afugenta indícios de laços e procura soltar suas asas e berrar "liberdade, liberdade!". Vive uma dupla personalidade, a educada Ana Paula, agora já dá passos diferentes, e se faz de outra, em outros dias, em outros lugares.
Natasha deixa rastros de garrafas, cigarros e badernas, acompanhada ou sozinha, sem pensar no futuro ou amanhã, rouba carros apenas por diversão. Seu ego infla com o caos, e com ele, aumenta o seu salto, e modifica seu estilo.
Natasha é mais do que outra personalidade. Ana Paula tem mais vidas, em todos os sentidos. Tem outras personalidades, e tal como, outras identidades - com carteiras falsas e idade adulterada. Ana Paula tem sede de libido, e é gatuna. O vento sopra enquanto ela lhe dá o golpe, e "desaparece antes que alguém acorde".
Talvez alguém encontre Ana Paula por aí. Talvez não a reconheça por Natasha à ter encoberto.
Ana Paula era uma moça de família, com um futuro promissor, pais amáveis e namorado piedoso. Ela abandonou os estudos, a presente e futura carreira, o seu par amoroso, religião e outras incertezas. Se dedicou ao hoje, ao cabelo verde, à tatuagem no pescoço, se dedicou ao salto quinze, à saia de borracha. Se dedicou à metamorfose Natasha, o mesmo rosto, com marcas diferentes - das drogas ou arranhões de brigas - o mesmo corpo, agora feito pro pecado e não mais abrigo de parte de algum deus.
Eis Natasha, a luta contra o tempo, o ilegal, o proibido. A jovem de vida bela, o paraíso resumido ao comprimido e mentalidade ou incertezas tão pequenas quanto.